Ácido Cinza

Games, filmes, séries, cultura pop e redundância.

Keiji Inafune: o mártir?

Se depois da tempestade vem a bonan(z)ça o que dizer da tempestade (de bosta) que ainda não passou que é um combo de Mega Man Legends 3 e a saída de Inafune da Capcom. Ficou particularmente notável como certos lugares por aí aludem ao cara como um mártir, um pobre coitado que perdeu seu filho quando pagava a pensão pra uma corte judicial maldosa e zzzzzzzz (esses Zs não são de Zero)…

…quê?

Te juro que com tudo que tá acontecendo, são os fãs dele que precisam ‘deal withar’.

Vamos começar do início. Eu não sei qual é que a da coisa toda, mas antes de tacarem a primeira pedra, lamento informar-lhes que Inafune não é “o pai do Mega Man” e por admissão própria (nos vídeos do Mega Man Universe ele sai dizendo que é, e quanto a isso, nem tentarei entender esse angu).

Você não vai penar pra encontrar entrevistas em que Inafune diz que entrou no time bem depois, e que o personagem já havia sido concebido – visual, tema, nome, e o nome do criador é Akira Kitamura, que Inafune chama de ‘mentor’. Kitamura não ficou muito tempo na franquia, saindo após Mega Man 2, e Inafune foi quem persistiu aos anos na Capcom.

Mas chamar Inafune de criador do Mega Man, no mínimo da série original, é que nem dizer que Koji Igarashi criou a série Castlevania. Um dos membros do time original do NES, “Tom-Pon”, diz que como Inafune “aperfeiçoou” o design do Mega Man ele é inquestionavelmente o pai do personagem.

Agora eu não sei como esses lances familiares nipônicos funcionam, mas me contento em dizer que não partilho dessa concepção, até porque séculos atrás lá era um país em que era legal se matar, como já diria um amigo meu.

Isso esclarecido vamos ao próximo ponto: toda a martirização em torno do Inafune após sua saída ‘tumultuada’ por assim dizer (os fãs do ocidente se ardem em rebuliço, no oriente não sei mas não vi muita coisa em alguns sites costumeiros; posso estar errado, claro – mas que a Capcom Japa mesmo nem se importou, isso é fato).

É engraçado que nego (leia-se: o fandom de Mega Man mesmo) vê essa saída como uma martirização no Inafune, que ele é um dos SALVADORES da indústria japonesa quando o cara simplesmente deu pra trás. “Mártir” que fugiu da luta e ficou lamentando é novidade pra mim, mas também de fandom você pode esperar tudo.

Já vi nego falando que ele saiu, que Devil may Cry reboot Dante emo pegada teen revoltado é uma das causas da saída dele, que ele viu o quanto a Capcom estava “indo pro buraco” e foi evitar o pior.

Até faria sentido se não fosse pelo caso de que isso foi algo que ele provocou- ele insistiu no redesign tosco do Dante.


Eu fiz o Inafune sair da Capcom, e ele que insistiu que eu existisse!

Ele ficou falando durante 10 anos na mídia japoronga, e daí em 2004 com uma entrevista pra uma revista gringa, o papo de como amava Legends. Após essa entrevista no ocidente, subitamente a fanbase de Legends (não DASH… DASH talvez sim, se for um desses fãs que acham que a versão japonês é SUPERIOR só por ser em japonês e ter o título “Rockman”) triplicou (o que nos dá uns 15 fãs no total, mas enfim).

Quem é das antigas com certeza vai lembrar quando gostar de Legends era algo que alguns fãs gostavam porque curtiam o jogo de fato, não por modinha. E também que todos os Mega Man de NES eram mais ou menos discutidos como todos muito próximos em qualidade: após essa entrevista subitamente Mega Man 2 virou o melhor de todos inquestionavelmente e se você não gostou azar o seu, porque Mega Man 9 e 10 já sairam. Pelo menos o Universe a gente conseguiu evitar.


De novo, porra?! E olha que o 2 é o meu favorito! (Mas só porque eu tinha o cartucho, ao invés de ‘é porque é o do Inafune tb LOL’).

Aí quando o cara vai fazer o projeto de vaidade dele – porque Legends nunca vendeu até por admissão do próprio, até quando portaram pro PSP – que ele ficou falando durante uma década inteira que IRIA fazer, ele abandona o cargo, o projeto, e todo mundo me põe o cara de herói, minha nossa senhora ele apoia o movimento do facebook, ele nos ama, etc.


Olhe pra ele, ele não está mais sorrindo! CAAAAAPCOOOOM!!!!

Imagino que entre nós e os escritórios enfurnados da Capcom do Japão existam mais do que pressupõe nossa vã filosofia. Mas pelo que ouço, Shinji Mikami tava na mesma situação que Inafune quando ia sair Resident 4; ele tava em um cargo muito maior na Capcom e Resident não andava vendendo bem – não estava em estado crítico mas uma injeção de ânimo era boa. Mikami SAIU do cargo dele pra poder fazer o jogo direito.

O Inafune forçou até o último talo um projeto com retorno duvidoso, e ao invés de fazer algo do nível – ele sempre disse que odiava ser um homem de negócios assalariado, não um criador de jogos efetivo – ele sai da empresa e ainda fala “Mas vocês podem me contratar!” e nego ainda fica aí falando “Olha a audácia, o desafio”, o quê? Fala sério que nego quer ver “desafio” nisso e não uma puta desilusão do cara de achar que depois de forçar a empresa a tocar publicamente um produto de risco, o próprio cara que acredita na ideia dá pra trás e eles diriam “ôpa! Beleza!”.


– Na 3ª vez VAI!
– Mas já não tem o jogo da TronnBolho?

– FUUUUUUUUUUUU

Acho que a atitude do Mikami tem BEM mais a ver com “ajudar a Capcom por dentro” do que o toda TGS falar “o Japão está todo fodido” –  e foi mais fazer do que falar.

Foi a mesma coisa com Mega Man 9 – as finanças tavam no vermelho, regredir pro formato NES foi uma estratégia boa com custo pequeno e alto retorno e apelou pro lado nostálgico, mas aí nego toma isso como “eles voltaram pro formato NES não porque era mais barato, mas porque eles NOS AMAM!!!”.


Fight, Mega Man! For Everlasting Low Cost Profittings!

Bom, eles te amam, claro. O mesmo tanto que nessas campanhas publicitárias a Coca-Cola realmente te ama de verdade e não a sua grana.

Mas eu sei que para casos agudos, a fanboyzice deve achar alguns argumentos absurdos pra justificar a grandeza da saída estratégica do Inafune, ou então só ignoram e continuam a falar a mesma ladainha de sempre.

Em tempo: Inafune teve grandes sacadas, claro. O próprio Mega Man 9 foi uma ideia genial com pouco orçamento, e volto a afirmar pra quem esquece convenientemente ou não sabia que sempre curti o formato retrô e gostei de ver ser usado… o foda foi ver nego dizer que isso era a prova de que o cara nos amava.

Fora isso a manobra de risco dele para lançar Dead Rising e Lost Planet também foi bem sacada, e todo o esquema de ele dar aulas sobre game design no Japão de graça é no mínimo do mínimo louvável.

Mas focinho de porco não é tomada. Não adianta endeusar a manobra do cara que abortou o próprio projeto dos sonhos e que ele deu uma respostinha sem graça dizendo que não importa quando ele saísse da Capcom “ele sempre estaria trabalhando em alguma outra coisa”.

Não foi simplesmente “outra coisa”, como um novo jogo de tiro vindo do nada que ninguém se interessa; foi o jogo dos sonhos dele que ele levou um fandom inteiro a se intoxicar junto.

No momento Inafune trabalha no jogo pra 3DS “KaiOu”, “King of the Pirates”. Vamos ver como ele lida com um IP novo e totalmente dele. Será interessante de se ver, afinal agora ele está fazendo o que gosta, segundo o próprio. Não há motivo pra agourar o que possa sair dali por conta de fanboys deslumbrados – assim como também não tem o menor sentido berrar GOTY! por causa deles.

Em tempo dois: copyright japonês não é tudo igual, amigos. Já vi trezentas pessoas falando que o copyright de Mega Man seria do Inafune. Pra começo de conversa, do Rock original no mínimo, não. E nem das demais séries. Inafune não é um autor de mangá, ele criou os personagens dele e trabalhou na série na condição de empregado (“work-for-hire”), logo o copyright é todo da malvadona. E se vocês acham que vão abrir mão dele… bom, é que nem pedir que a Marvel abra mão do Homem-Aranha só porque o Stan Lee não escreve ele mais.

Ou seja: esqueçam.

4 Respostas para “Keiji Inafune: o mártir?

  1. Luiz Zero outubro 31, 2011 às 2:11 am

    Os esforços de Inafune ao se sacrificar caindo fora da Capcom serão lembrados e reconhecidos quando a industria dos games se renovar graças aos seus esforços. A história provará que ele estava certo!

    (insira foto do Sergio Mallandro fazendo HHHHHAAA! aqui)

  2. Carlos Rod novembro 17, 2011 às 4:37 pm

    Melhor texto sobre o Inafune da Internet. Eu sinceramente mal sabia quem era ele até muito tempo depois. Meu favorito era e ainda é o Mega Man 3. Acho melhor que o 2, que também é foda, mas com a adição do Rush, Proto Man e o slide deixou tudo mais legal. E a música do Snake Man é a melhor de todas (tá bom, tem outras fodas, mas é uma das melhores, vai!)

    Eu fui fã de Legends muito antes dele falar que era seu favorito. Fui bem contra a maré quando o jogo saiu, todos dizendo que era uma merda por não ser muito “Mega Man”, mas eu adorei a jogabilidade meio Zelda/Metroid e o carisma da cidadezinha estilo Hayao Miyazaki. Por isso fico triste que não façam mais, pois eu realmente gosto da fórmula…

    E o Inafune é isso ae mesmo. Deu pra trás, boa sorte pra ele agora. Mas é bonito ver os fãs tentando reviver o projeto Legends, mesmo que seja impossível. E sendo a saída do Inafune relevente a isso ou não, a Capcom tá mesmo bem sacana com o azulzinho ultimamente. Nem pra colocar ele no Ultimate Marvel vs Capcom. E pior que tão falando que agora ele vai vir por DLC, mas vai ser só roupa diferente do Zero. Bah!

  3. Spider-Phoenix novembro 30, 2011 às 9:26 pm

    Excelente artigo, Shin!

    Para ser honesto, não tinha ciência de algumas dessas informações. Ainda acho que essa história do Legends 3 tem alguma coisa de que ainda não sabemos…

    De qualquer forma, obrigado por compartilhar conosco!

  4. SAULO AUGUSTO DUARTE dezembro 29, 2011 às 7:10 pm

    Esta é uma realidade muito difícil de ser aceitada, mas parece que a Capcom resolveu parar de produzir games do Mega Man. Mega Man Starforce é a sétima saga da franquia, criada para um único propósito: para comemorar os 20 anos de Mega Man. Em 2012, Mega Man vai fazer 25 anos e não terá nenhum jogo produzido. Seria este o fim da franquia? Não, Mega Man vai continuar sendo o mito que sempre foi, assim como Mario, este que desde 1985 está na ativa e vai ficar na ativa por um bom tempo.

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