Ácido Cinza

Games, filmes, séries, cultura pop e redundância.

Tosqueiras do Fundo do Baú – TERROR em LOVE CITY

Olha, deixa eu falar a honestidade aqui pra vocês: APESAR de “Manos”, não sou muito um escavador de tosquices. Mas se eu topo com alguma coisa daquele tempo que não volta mais por acaso muitas vezes eu vou até as últimas consequências – o que, ainda bem, quer dizer apenas em jogar / assistir / ouvir qualquer coisa, do que algo mais grave que essa frase daria a implicar.

Então qual não foi minha surpresa quando do nada topo no Youtube num vídeo com “Ai City”, um OVA de 1986 que saiu aqui na terrinha lá por 1989 com o título “TERROR EM LOVE CITY”, e que eu acabei topando com meus – sei lá, imagino 5 anos de idade, e alugado.


Não havia Carga Pesada na época para eu saber que “é uma cilada, Bino!”

Acho que é bom pôr as coisas em perspectiva – enquanto “Manos” é um filme terrível porque é ineptamente realizado, “Terror em Love City” é consideravelmente bom tecnicamente ainda mais para sua época, mas que sai do nada em uma longa jornada para chegar ao lugar nenhum. E essa coisa é tão absurda que vou ser forçado a resumí-la pra vocês terem uma noção de como realmente é.


Começando do início, o filme é um storyboard perfeito de Akira no geral – antes que surtem dizendo que estou DESRESPEITANDO (OH BOY) o filme que fez boa parte do ocidente descobrir os animezinhos, é mais na questão da narrativa: vamos pegar um mangá que tá há anos sendo publicado e enfiar em algo curto como um filme tentando ir do começo ao fim. Ainda por cima, “Love City” tem um tipo de ‘linguagem de videoclipe’ levada ao pé da letra – parece que a 1ª coisa que o diretor queria fazer era colocar luzes esquisitas nas caras dos personagens em trezentas cenas, e bom, pelo menos isso ele conseguiu com louvor. Já o resto do filme…

Basicamente em o quê supomos ser algum futuro próximo o filme já começa com um jovem dirigindo um carro, dizendo que seu ‘codinome’ é “K” com um tiozão bêbado no banco de trás e uma garotinha no banco da frente cujo codinome é “I” (mas como isso seria ENGLISH LOS CODINOMBRES, se leem “Kay” e “Ai”, claro). K, I e o tiozão Raiden (que não solta trovões) são perseguidos por motoqueiros aleatórios e uma ruiva chamada “K2” (que não, não é Esperta pra Cachorro). Essa cena culmina mostrando que no futuro, você luta disparando raios de sua testa que mostram seu NÍVEL DE PODER DE LUTA.


E você achou que eu tava mentindo

Essa é a abertura da coisa. Aí ficamos sabendo que K e I estão fugindo da terrível organização FRAUD (PROFUNDO!) que… talvez governe o mundo, sei lá. Além de reparar buracos no espaço-tempo causados pelos raios cabeçais de K e companhia nós não sabemos exatamente o que eles fazem. Um tiozão que devia curtir muito Tartarugas Ninja quando pequeno pois se veste meio que como um Destruidor ARDECORE (“Ka Ragua Lee”, no que suponho que foi uma tentativa falha de escrever Ni Ka Ragua) parece ser o chefão da coisa toda e quer “I” de volta (nunca adivinharia).


Ka Ragua Lee… mas vou chamar de Ni Ka Ragua, como tentaram nomeá-lo

Ele manda um androgininho qualquer e dois chinas ciborgues pálidos cuidarem desse dantesco trabalho enquanto discute jargões incompreensíveis com um china minúsculo que está dentro de um robô embebido em líquido.


E você achou que eu tava mentindo parte 2

Nikaragua mostra que também tem LASERS CABEÇAIS NUMÉRICOS e põe nosso amigo china pra voar (cujo nome é LAI LOU CHIN, a propósito. Juro que essas coisas juntas devem ser uma espécie de xingo em cantonês ou sei lá), que vai embora rindo dizendo que vai dar merda logo logo. Bom, dar já deu, já que eu reassisti essa coisa.

Ah, mas de que adianta? Depois de um flashback sem palavras que não explica absolutamente nada pro panorama geral K explica que ele é uma experiência de clonagem e que foi fugir dos FRAUDULENTOS, mas topou com I e resolveu levá-la junta e tratá-la como sua filha porque ela é um clone criança de sua namorada (é sério). O rapaz androgininho (cujo nome é “J” – meu deus, acho que percebo um padrão) e os ciborgues chinas acham K e companhia e resolvem sair pro pau enquanto uma música com letra embaraçosa no fundo toca (HE’S A MAN – HE’S A PSYCHIC FIGHTER – FIGHTING FOR JUSTICE! EVERY DAY – AND NIGHT!).


“Mais respeito comigo, fui o Afrodite de Peixes da minha época!”

No final das contas, um dos chinas ciborgues é morto acidentalmente por K2 (que perdeu a memória e do nada se apaixonou pelo tiozão detetive), e as cabeças gigantes malvadas da caixa do VHS brazuca aparecem comandadas pelo china maligno (quantos tem mesmo? Tô perdendo a conta) dentro do copo de Tang em cima de corpo de robô (ah, é esse!). Elas pegam I e K2 e colocam o rapazinho e o china cibernético pra escanteio. E com o jeitão meio perturbador que aparecem você até pensa que serão meio que uma ameaça considerável, mas na verdade quase todas as cabeças morrem por baterem uma com a outra ou por baterem de cara com um poste ou parede na rodovia.

Cabeçonas, vocês são umas bostas.

LAILUTIN (o china do Tang) tenta controlar K mentalmente pra matar I, mas não acaba dando certo e todo mundo cai da cabeça gigante. Aí ele despiroca e parece ter dupla personalidade, e só com uns movimentos de mão destrói a cidade inteira – porque o cenário distópico destruído era um clichê de animes oitentistas que esse filme precisava obedecer. Frente a essa terrível nova realidade e sobrevivendo sabe-se lá como, o tiozão Raiden e K2 decidem que é hora de pegar pesado – e trocam de roupa. E K2 põe roupa de coelhinha da Playboy.


E você achou que eu tava mentindo parte 3

Claro que ficar de papo pro ar não é saudável, pois o DESTRUIDOR 2099 resolve LEVAR ESSA PORRA A SÉRIO e envia um TRANSFORMER pra raptar I. E depois disso o Transformer some do resto do filme – não que o filme tivesse nada a ver com robôs transformadores pra começo de conversa. O que importa é que I foi sequestrada e levada pra uma torre cor de limão com uns 300.000 andares. Destemido, K resolve ir até lá. Andando.


Vai demorar um pouco, mas nunca desista, Forrest

Antes disso uma coisa que meio que me pega estranhando é como que para algo entitulado “TERROR em sei lá onde” todo mundo é incrivelmente gentil uns com os outros. Nikaragua Destruidor encontra o china ciborgue de óculos de Morfeu de Matrix e o Afrodite nuns escombros e ajuda eles na maior boa vontade, pra um chefão do mal. Aí depois de ACIDENTALMENTE matarem o rapazinho afeminado com um bazucão, K2 diz pro china ciborgue que ela não queria ter matado seu irmão gêmeo em design e deixa ele por aí por essas mesmo e o cara dá aquele puta sorrisão de ponta a ponta.

Terror? Às vezes. Boa-vontade? Sempre

Depois de jogarem UM CARRO na torre limão (numa cena que soa bem melhor descrita do que executada) K e seus amigos vão pra BATALHA FINAL com Nikaragua – com direito a encontrar outro robô, mas que infelizmente não é o Transformer – e Karagua de Asa fez uma salutar lavagem cerebral inexplicada em I (clichê #328 do filme distópico dos anos 80). Tudo muda de figura quando um gato esquisito que tava ali o tempo inteiro no filme bancando ou alívio cômico ou alívio fofinho começa a querer virar um Thundercat e faz I se lembrar que “a senha é I City”. I City. Ai City. Ai = Amor. Love City. MALLANDRÕES

Quando ela fala isso do nada temos mais um flashback inexplicável que aparece na cabeça de Nikaragua e K, que se lembram de algum tempo sabe-se lá quando onde eram cientistas com direito ao chinês do Tang sendo cientista também olhando algumas células num microscópio, e supostamente isso é tão absurdo que eles estão violando as leis de deus. Aí do nada um dos caras que infelizmente não tem contraparte no presente  (logo é inútil) cai morto no chão ficando verde. “MODEUSO, É A BIOPOLUIÇÃO!”, exclamam nossos amigos cientistas. Lição de hoje: olhar células poluídas pode causar sua morte – evite a marginal do Tietê.


OK, se eu estivesse olhando uma célula que parece evoluir para uma junção de 4 pintos eu também cairia morto.

A essa altura você provavelmente estaria imaginando que não tem como esse fazer menos sentido ainda, mas você não sabe o quanto estaria enganado. Depois de mais chapagens videoclípticas com a silhueta de uma mulher andando com números e DNAs ao redor dela nosso trio de cientistas falam que colocaram um antio-bio-poluente que sei lá o que seja nela pra ser ATIVADO com uma senha em um “futuro caótico onde não resta esperança a ninguém”, meio assim quando um grupo de pessoas decide fazer um filme que não tem uma grama de sentido em todos os seus frames. E a senha, claro, é “I City”, e a mulher é de quem I foi clonada. Nosso flashback é interrompido pelo famoso quem que caiu morto, aparecendo pra explodir sua cabeça dizendo que “quer mais DNA”.

NÃO QUERO MAIS BRINCAR DE ASSISTIR TERROR EM LOVE CITY

Obviamente, o fim do flashback quer dizer que acabou a lavagem cerebral na guria e o Destruidor 2000 acaba chegando a conclusão de que estava lutando do lado errado (contra O QUÊ estamos lutando, mesmo? Também não sei) e pede perdão. O cara até tira a máscara e pô, ele era gente boa mesmo. Tenho certeza que ele era um dos G.I. Joe!


Mas eis que chega LAILUTIN, o chinês do Tang, falando borracha e crescendo outra cabeça e ficando amarelo e… olha, não adianta, o que acontece é que destroem a roupa dele onde ele era cultivado em Tang logo ele se torna um monstro de carne tentacular que começa a absorver tudo na sala com um olho gigante. Essa é a realidade. DEAL WITH IT. E digam adeus ao Nikaragua e o outro china ciborgue também.


SHERRRRRYYYYYYYYYYYYYYYY

Logo o bicho ocupa a sala inteira e é estágio final do Contra pra lá e pra cá cheio de coisas orgânicas, pulsantes e nojentas em tudo quanto é cor e elasticidade. O que nosso destemido herói, K, fará para remediar a situação? Ora, amigos, é muito simples, como uma VOADORA poderia falhar nesse momento tão crucial?


LAIDAAAAAAAAAAAAAAA KEEEEEEEEEEEEEEEKH

Infelizmente o olho simplesmente desvia.

E VOCÊ CHAMA ISSO DE SUPER PSYCHIC POWER?!

Agora que sabemos que essa é a ÚLTIMA AMEAÇA do filme, porque sua duração não acomoda mais nada, dá pra prever que quando I sai correndo pra implorar que seu “pai” seja poupado, ela e o Monstro Olhão vão se engalfinhar em um entendiante bate-papo filosófico sobre a natureza dos seres humanos e se eles são um câncer ou não e tudo o mais, que nosso amigo olhudo apimenta com imagens aleatórias de humanos como demônios barrigudos pra convencê-la de que eles são muito malvados. Mas olha, isso não é nada. O pior é tornar ela um construto de catarro durante essas cenas.

NADA É SAGRADO PRA VOCÊ, SEU CRÁPULA?!

Infelizmente está longe de ser o fim da celeuma diplomática entre a menor de idade e o maior de peso: agora ele quer convencer I a voltar no tempo pra dar um reset no mundo (clichê #540 de qualquer obra distópica, inclusive as atuais), e temos uma BELLA cena involuntariamente cômica onde ele vai nos salutares “OS HUMANOS SÃO MALIGNOS!” com close no olho, aí ela diz “Não são!”, mas cada vez que damos um close em I ela está realmente regredindo. Vira um bebê, vira um feto, vira um célula, e infelizmente não nos brindaram com ela sendo um espermatozoide concorrendo pra chegar no útero nesse vai-que-vem.


Dane-se isso, fique com o Monstro Olheira surfando na superfície terrestre

No final das contas, não adianta de nada porque para um monstro de carne o senhor Olheira quis ser filosófico demais e quis jogar I de volta no oceano primordial, e oceano pra ela lembra de quando ela quando não era clone foi pra praia com K, então o poder do amor supera o terrível Olheira que toma uma rajada de poder testal infinito no meio das ideias e começa a se auto-consumir, tipo o Pizza The Hutt do Spaceballs. E aí ele morre, o dia é salvo,  nossos heróis jogam conversa fora e o filme começa de novo.

Sim, é sério. O filme começa de novo do nada. O cachaceiro parece notar que essa é uma piada de mal gosto e rolam os créditos.

Eu não vou fazer isso de novo NEM A PAU (mas o gato topa)

Não sei o que dá pra falar de “Terror em Love City”. A começar do título adaptado (tá mais pra “Videoclipe sem rumo de Love City”, mas em japa mesmo era só “Ai City” que dá “Cidade do Amor” então… é, foda-se), a narrativa absurda sustentada em jargões ininteligíveis (na versão dublada, é MUITO engraçado ouvir o flashback onde teoricamente explicam a coisa toda – os dubladores estão totalmente sem rumo e o texto acompanha) e os acontecimentos desconexos dão um típico anime oitentista que quem gosta de uma tosqueira do bem irá curtir, mas comigo foi sinceramente monótono. Você vai acompanhando que nada vai ser explicado mesmo, nada muito sério vai acontecer com os personagens principais, a trilha às vezes é um oitentismo adequado e às vezes parece que enfiaram trilha do Jaspion do nada, então pra resumir a coisa toda digo que não é bom o suficiente pra ser ruim e certamente não é ruim o suficiente pra ser bom.

Se você sente falta dos tempos em que desenho japa não era focado em monstrinhos fofinhos ou mocinhas menores de idade com closes ginecológicos e afins, até pode curtir essa tentativa de ficção científica que não diz nada pelo valor de ser representativo de sua época. Mas achar mais valor do que esse em “Terror em Love City” tá difícil, viu.

Olha, deixa eu falar a honestidade aqui pra vocês: APESAR de “Manos”, não sou muito um escavador de tosquices. Mas se eu topo com alguma coisa daquele tempo que não volta mais por acaso muitas vezes eu vou até as últimas consequências – o que, ainda bem, quer dizer apenas em jogar / assistir / ouvir qualquer coisa, do que algo mais grave que essa frase daria a implicar.

ROLEM OS CRÉDITOS

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: